terça-feira, 28 de junho de 2011

O que fica quando acaba o amor.

"Devia existir um manual de instruções para acabar relações.
A verdade é que sabemos sempre começá-las, agarramo-nos aos inícios com a sabedoria dos mágicos, operamos transformações milagrosas em nós próprios e no objecto do nosso amor, de repente tudo nos parece fácil e grato, sentimo-nos com asas como albatrozes, nas nossas costas cresce uma capa encarnada e carregamos no peito o símbolo do Super-Homem, tudo é divino e santo visto assim, o mundo não é um mundo, é um jardim, como diz Florbela Espanca.
Não há nada melhor do que começar uma relação. O novo é irresistível. Descobrem-se coincidências que vão desde o mesmo nome dado ao irmão imaginário até à mesma colecção de cromos. É a primeira vez outra vez em tudo. Descobrimos o outro em nós e nós no outro.
No início de todos os inícios sentimo-nos tão estupidamente felizes que seríamos capazes de morrer a seguir, porque achamos que atingimos o ponto máximo da felicidade.
O pior vem a seguir. Como dizia o Picasso: bom é mesmo o início, porque a seguir começa logo o fim. E quando o fim chega, já é tarde demais para voltar atrás. É sempre tarde demais.
Isto do amor é mesmo uma coisa complicada, começa-se do nada, vive-se na ilusão que se tem tudo, mas o que fica quando o amor acaba é um nada ainda maior. E o pior, o pior é que na primeira oportunidade repetem-se os mesmos erros à espera de resultados diferentes, o que é uma boa definição de demência. E quem se considere imune a tais disparates e nunca tenha passado por estas avarias sentimentais, que atire a primeira pedra.
O Miguel Sousa Tavares escreveu: primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que aparece onde dantes estava intimidade. E pronto, já está tudo estragado. Acaba-se a festa, o delírio, o fogo de artifício, o sabor a novidade, e onde vamos parar? Ao vazio. Ao abismo. Ao grande buraco negro dessa coisa horrível e inevitável que se chama depois, depois de se apagar a chama. E esta é a condição humana, doa a quem doer.
Ou, então, a ironia da vida separa os amantes para sempre e o fim do amor é o inicio do mito do amor eterno. Pedro e Inês foram sepultados de frente um para o outro, para que se pudessem ver no dia da ressurreição. Romeu e Julieta nunca mais se separaram no imaginário ocidental. Dante viveu para sempre ao lado da Beatriz, Penélope recuperou o seu guerreiro depois de vinte anos de espera.
O amor, esse mistério que antecede a vida e sobrevive à morte, reina como um tirano por cima de todas as coisas, mas poucos são os que o conseguem agarrar. É mais difícil de alcançar do que o Olimpo, porque não está no céu nem na terra, paira como uma substância invisível, mais leve que o ar, mais profundo que toda a água dos oceanos.
Talvez seja apenas uma invenção dos homens para fugir à morte. Ou talvez tenha outro nome na Bioquímica. Mas não podemos viver sem ele e, quando o perdemos, achamos que nunca mais o vamos conseguir encontrar."
Margarida Rebelo Pinto in A Minha Casa É O Teu Coração

5 comentários:

Anne. disse...

hahahaha Margarida :D!
é completamente verdade, ela sabe EXACTAMENTE como eu me sinto! Me sentia vá, ja foi ha bastante.
Beijo grande :D

Daniela disse...

adoro o teu blog! :) sigo *

S (!) disse...

fantástico ;o

Daniela disse...

obrigada :)

- paatý ॐ disse...

Gosto mesmo (:
adoro esta escritora ahha